A primeira vez

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           É a primeira vez em muito tempo que me deito na rede da varanda do meu quarto feliz. Não, não chamei meu quarto de feliz. É a primeira vez em que estou feliz dentro de um longo período e me deito nessa rede. Acho que ficou melhor assim, né?! Há mais ou menos cinco anos me mudei pra cá. Meu antigo quarto, no lado oposto da casa, faz divisa com o único hospício da cidade. Dígamos que… era complicado. Na fronteira da sanidade dei um grito de liberdade. E agora é oficial, eu não nasci pra rimar.   

           Meu atual dormitório é a “suíte” da casa (e desde quando pobre tem suíte, menina?). Na verdade qualquer cantinho de parede servia. Lucidez é coisa boa pra se ter, queria perder a minha não. Saí do convívio com o hospício literal e minha vida virou um literário. Não é que eu esteja reclamando, lamentando ou  me maldizendo. Longe de mim. É que passando pela transição “adolescência-vida adulta” a existência de qualquer um vira um american pie feat. amelie poulan, vira um  drama-comédia-alternativo-comercial-terror-cult-aventura-pastelão. Vira um poço de melancolia. O meu inundou a cidade.

            Foi tanto contratempo, desilusão tinha pra vender. Com certo distanciamento, olhando quase que de fora, bate até vergonha de alguns contextos. Pode ter vergonha de si mesmo? Pode. Mas vê se aprende algo com isso. cabeção.

          Eu deitava nessa rede, ligava o rádio que sempre tocava um Zezé de Camargo pra ferrar tudo logo, olhava pro céu e chorava e pensava e dormia. Só pra acordar com a cara no sol. Parece que ele fazia de propósito. Hoje eu não vou dormir aqui. O sol não precisa mais me queimar o rosto pra que eu entenda que todo dia é um. Pra que eu tenha calma. Aprendi.

              Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Não vou esquecer dessa sensação. As sensações (incluindo as que ainda não conheço) são, de longe,  minhas melhores namoradas. Hoje eu não tenho muita coisa pra esperar, hoje eu não tenho uma tristeza pra pingar nos olhos, hoje eu até tive coragem de escrever. Digo, de levantar pra abrir o notebook e digitar isso.  

               Tenho me desfeito das pressas e coloquei todas as minhas ansiedades em banho maria. Por incrível que pareça tive uma recaída por minhas obrigações, estamos perdidamente apaixonados. É um relacionamento aberto, elas não se enciumam quando gasto metade da tarde no Netflix tentando completar a filmografia de Woody Allen. Nem quando eu durmo fazendo isso. Me pergunto se é mesmo feliz a definição, na rede, com a vida… Não é. É confortável. Confortável dentro dessa casca onde botaram minha alma. Quero uma rede dentro de mim.

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