RIP, Azulão

Não tinha intenção de ver um morto hoje. Mas vi. Velório é tudo sempre igual, né? Em visita a casa da minha avó ela foi logo contando da morte desse senhorzinho que era “muito amigo do teu avô” e “vamo lá comigo agora antes do almoço? porque se entardecer eu perco a coragem”, ela disse com aquele tom imposto/carinhoso que só ela tem e que não me dava muita escolha. Quem é que nega pedido de vó?

Fomos até lá a pé, era pertinho. Só tinha uma ladeira escrota pra subir no sol de meio dia. Nada não, lá de cima deu pra ver a cidade de um jeito novo. A funerária VIDA estava com seu estande apostos em frente a casinha de taipa. Na sala, o morto. Minha avó começou a consolar a moça prostrada no caixão (acredito que filha do defunto), começou assim: “Olha, Fulana. Foi melhor pra ele. Se ele tivesse ficado vivo provavelmente teria entrado numa depressão. Um homem nessa idade ter uma perna amputada… É difícil.” Pensando bem, talvez eu não tenha usado palavra ideal. Mas acho que o fato da minha avó ter ficado viúva duas vezes, quase que seguidas, e ainda tá subindo as ladeiras da vida literalmente a pé, deve ter confortado um pouco a família. Boatos que Deus não nos dá fardos mais do que nossa coluna aguenta.

Minha avó entrou pras bandas da cozinha e eu me sentei numa cadeira em frente aos pés do defunto. A sala era apertadinha. Fiquei olhando pra cara dele e imaginando qual teria sido o momento mais feliz e o mais triste de sua vida. Não pensei em nada. Egocentrista que sou, pensei foi em mim e meu signo de libra nem me deixou ter resposta. Em seguida, um homem de blusa verde adentrou a sala, meio bêbado, ele parou em frente ao caixão e eu juro que quase escutei ele pedir ao morto pra que acordasse. Derrotado e cambaleando, foi embora.

Duas mulheres a minha esquerda conversavam sobre suas famílias. “Tua filha já tá com quantos meses? Oito?” – “Ela tem cinco anos”. “E tua mãe como é que tá?” – “Minha mãe? Ela morreu.” Também derrotada, Dona Interrogação voltou a falar da diabete alta que levou Azulão ao túmulo, entenderam-se. Comunicação é tudo.

Escutei a voz da minha avó se aproximando, ela olhou pra mim e perguntou se eu havia reconhecido Azulão, o morto. “Não.” – “Mulher, ele era muito amigo de teu avô. Quando teu avô via ele, mandava-le o gripo ‘vem pra cá pra nois jogar, Azulão’. Vamo embora que eu tenho que passar na casa de Ilzinha, a bichinha teve um AVC anteontem”. Na calçada da casa umas três mocinhas conversavam, sem saber, sobre feminismo: “Eu não deixo homem nenhum mandar em mim. Porque isso vai refletir no meu futuro. Eu tenho que ser independente. Se a gente ajoelhar, eles ‘amuntam’ mesmo.” As mais novas ouviam discípulas. Genial.

Ladeira abaixo, com um sorriso de saudade do meu avô na cara, minha vó continuou falando de Azulão, . “Ele tinha esse apelido porque só usava azul. Uma vez Vicelmo (um Highlander do rádio Caririense) veio até entrevistar ele.” Quando o radialista perguntou quantas vezes Azulão havia sido preso, a resposta foi “pra mais de 100”. Aí ela riu e continuando a história disse que ele também havia sido solto mais de 100 vezes. Eu ri com ela. Comunicação é tudo.

“Eu não vou parar em Ilzinha mais não, ela deve tá dormindo essa hora.”

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