Oração perdida

Vou começar meu dia com uma oração. Não há nada de errado comigo, exceto por essa imensa indiferença que sinto há dias pelo mundo. E pior, comigo mesma. Nunca gostei de emoção rasa. Sinto que não tenho as rédeas da minha mente (sim, era tudo que eu queria na vida). As ramificações dela vão pra onde querem, lhe dei tanta vontade, achando fazer o certo, que perdi o controle. Eu perdi o controle? Será isso? 
Tenho colocado todas as minhas energias em realizar atividades simples. Embora eu demonstre segurança, é mais uma característica do estilo que adquiri com o tempo do que uma realidade. É mais o que eu quero ser do que o que de fato eu sou. Já troquei de opinião todas as vezes possíveis nos mais variados temas e eu ainda sou tão jovem. As explicações mais sensíveis, virei do avesso, só pelo gosto. 
Não sei o que esperar do lado de fora, do mundo, se não sei o que esperar do lado de dentro, de mim. Realizar as obrigações simples do dia a dia tem sido difíceis, as aperto nas mãos e me esforço dando o meu melhor, mas logo as sinto escorrendo pelos dedos. Livres como o ar.
Agora percebo que essa talvez seja a oração mais honesta do mundo. Não pedi nada, nem agradeci. Nem chamei por Deus. Ele agora me parece tão livre quanto meus pensamentos ou quanto minhas pontuais obrigações, que por mais que eu tente agarrar, escorrem entrededos.  

  
 

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A primeira vez

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           É a primeira vez em muito tempo que me deito na rede da varanda do meu quarto feliz. Não, não chamei meu quarto de feliz. É a primeira vez em que estou feliz dentro de um longo período e me deito nessa rede. Acho que ficou melhor assim, né?! Há mais ou menos cinco anos me mudei pra cá. Meu antigo quarto, no lado oposto da casa, faz divisa com o único hospício da cidade. Dígamos que… era complicado. Na fronteira da sanidade dei um grito de liberdade. E agora é oficial, eu não nasci pra rimar.   

           Meu atual dormitório é a “suíte” da casa (e desde quando pobre tem suíte, menina?). Na verdade qualquer cantinho de parede servia. Lucidez é coisa boa pra se ter, queria perder a minha não. Saí do convívio com o hospício literal e minha vida virou um literário. Não é que eu esteja reclamando, lamentando ou  me maldizendo. Longe de mim. É que passando pela transição “adolescência-vida adulta” a existência de qualquer um vira um american pie feat. amelie poulan, vira um  drama-comédia-alternativo-comercial-terror-cult-aventura-pastelão. Vira um poço de melancolia. O meu inundou a cidade.

            Foi tanto contratempo, desilusão tinha pra vender. Com certo distanciamento, olhando quase que de fora, bate até vergonha de alguns contextos. Pode ter vergonha de si mesmo? Pode. Mas vê se aprende algo com isso. cabeção.

          Eu deitava nessa rede, ligava o rádio que sempre tocava um Zezé de Camargo pra ferrar tudo logo, olhava pro céu e chorava e pensava e dormia. Só pra acordar com a cara no sol. Parece que ele fazia de propósito. Hoje eu não vou dormir aqui. O sol não precisa mais me queimar o rosto pra que eu entenda que todo dia é um. Pra que eu tenha calma. Aprendi.

              Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Não vou esquecer dessa sensação. As sensações (incluindo as que ainda não conheço) são, de longe,  minhas melhores namoradas. Hoje eu não tenho muita coisa pra esperar, hoje eu não tenho uma tristeza pra pingar nos olhos, hoje eu até tive coragem de escrever. Digo, de levantar pra abrir o notebook e digitar isso.  

               Tenho me desfeito das pressas e coloquei todas as minhas ansiedades em banho maria. Por incrível que pareça tive uma recaída por minhas obrigações, estamos perdidamente apaixonados. É um relacionamento aberto, elas não se enciumam quando gasto metade da tarde no Netflix tentando completar a filmografia de Woody Allen. Nem quando eu durmo fazendo isso. Me pergunto se é mesmo feliz a definição, na rede, com a vida… Não é. É confortável. Confortável dentro dessa casca onde botaram minha alma. Quero uma rede dentro de mim.

RIP, Azulão

Não tinha intenção de ver um morto hoje. Mas vi. Velório é tudo sempre igual, né? Em visita a casa da minha avó ela foi logo contando da morte desse senhorzinho que era “muito amigo do teu avô” e “vamo lá comigo agora antes do almoço? porque se entardecer eu perco a coragem”, ela disse com aquele tom imposto/carinhoso que só ela tem e que não me dava muita escolha. Quem é que nega pedido de vó?

Fomos até lá a pé, era pertinho. Só tinha uma ladeira escrota pra subir no sol de meio dia. Nada não, lá de cima deu pra ver a cidade de um jeito novo. A funerária VIDA estava com seu estande apostos em frente a casinha de taipa. Na sala, o morto. Minha avó começou a consolar a moça prostrada no caixão (acredito que filha do defunto), começou assim: “Olha, Fulana. Foi melhor pra ele. Se ele tivesse ficado vivo provavelmente teria entrado numa depressão. Um homem nessa idade ter uma perna amputada… É difícil.” Pensando bem, talvez eu não tenha usado palavra ideal. Mas acho que o fato da minha avó ter ficado viúva duas vezes, quase que seguidas, e ainda tá subindo as ladeiras da vida literalmente a pé, deve ter confortado um pouco a família. Boatos que Deus não nos dá fardos mais do que nossa coluna aguenta.

Minha avó entrou pras bandas da cozinha e eu me sentei numa cadeira em frente aos pés do defunto. A sala era apertadinha. Fiquei olhando pra cara dele e imaginando qual teria sido o momento mais feliz e o mais triste de sua vida. Não pensei em nada. Egocentrista que sou, pensei foi em mim e meu signo de libra nem me deixou ter resposta. Em seguida, um homem de blusa verde adentrou a sala, meio bêbado, ele parou em frente ao caixão e eu juro que quase escutei ele pedir ao morto pra que acordasse. Derrotado e cambaleando, foi embora.

Duas mulheres a minha esquerda conversavam sobre suas famílias. “Tua filha já tá com quantos meses? Oito?” – “Ela tem cinco anos”. “E tua mãe como é que tá?” – “Minha mãe? Ela morreu.” Também derrotada, Dona Interrogação voltou a falar da diabete alta que levou Azulão ao túmulo, entenderam-se. Comunicação é tudo.

Escutei a voz da minha avó se aproximando, ela olhou pra mim e perguntou se eu havia reconhecido Azulão, o morto. “Não.” – “Mulher, ele era muito amigo de teu avô. Quando teu avô via ele, mandava-le o gripo ‘vem pra cá pra nois jogar, Azulão’. Vamo embora que eu tenho que passar na casa de Ilzinha, a bichinha teve um AVC anteontem”. Na calçada da casa umas três mocinhas conversavam, sem saber, sobre feminismo: “Eu não deixo homem nenhum mandar em mim. Porque isso vai refletir no meu futuro. Eu tenho que ser independente. Se a gente ajoelhar, eles ‘amuntam’ mesmo.” As mais novas ouviam discípulas. Genial.

Ladeira abaixo, com um sorriso de saudade do meu avô na cara, minha vó continuou falando de Azulão, . “Ele tinha esse apelido porque só usava azul. Uma vez Vicelmo (um Highlander do rádio Caririense) veio até entrevistar ele.” Quando o radialista perguntou quantas vezes Azulão havia sido preso, a resposta foi “pra mais de 100”. Aí ela riu e continuando a história disse que ele também havia sido solto mais de 100 vezes. Eu ri com ela. Comunicação é tudo.

“Eu não vou parar em Ilzinha mais não, ela deve tá dormindo essa hora.”